A deputada federal Flordelis, fala sobre a morte de seu marido, o pastor Anderson do Carmo. Fernando Frazão/Agência Brasil
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G1 – Fantástico

O Fantástico leva você para dentro da casa onde foi feita a reconstituição do assassinato de Anderson do Carmo, marido da deputada Flordelis. E também revela novos fragmentos dessa investigação que foram entregues à Polícia Federal.

Flordelis foi casada por mais de 20 anos com o pastor Anderson. Juntos, criaram 55 filhos, sendo 51 adotivos. A família continua na casa, em Niterói, mesmo depois do crime, mas ninguém quis aparecer. Segundo a deputada, 45 filhos ainda vivem ali.

A equipe do Fantástico teve acesso exclusivo a cômodos que estão no foco da investigação, como o closet do casal, onde o pastor estaria pouco antes de ser assassinado.

Os objetos pessoais do pastor Anderson foram preservados no closet do casal. Tem ternos, camisas, sapatos, tênis. Segundo o depoimento da deputada Flordelis, assim que o casal estacionou o carro na garagem, ela subiu as escadas diretamente ao quarto dela. Segundo o depoimento, ela teria deixado seus pertences — objetos, bolsa e sapato — na cama e seguiu diretamente até o quarto dos filhos. E foi lá onde ela escutou o barulho dos tiros.

Em depoimento à Polícia Civil no dia do assassinato, em 16 de junho, Flordelis afirmou que ouviu “uma série de disparos de arma de fogo, sendo inúmeros, não sabendo precisar quantos”. Uma semana depois, em outro depoimento, ela disse que “ouviu quatro disparos seguidos e depois mais dois disparos”.

O crime aconteceu na garagem. Essa é a primeira vez que uma equipe de reportagem é autorizada a entrar no cômodo. Segundo os filhos que ainda moram na casa, o corpo do pastor Anderson foi encontrado deitado, baleado no chão. Ao lado dele, o carro que o casal utilizou naquela madrugada. É possível encontrar algumas marcas de tiro. O vidro traseiro também se quebrou durante a ação. O carro já foi periciado pela polícia e esteve durante a reconstituição feita neste sábado (21). Segundo o laudo da polícia, o corpo do pastor Anderson tinha 30 perfurações. É por isso que a segunda etapa da investigação apura se outras pessoas que ainda não foram denunciadas participaram do crime.

Até o momento, dois filhos estão presos, denunciados pelo Ministério Público. Flávio e Lucas contaram detalhes do crime à polícia, três dias depois do assassinato. O Fantástico mostra, com exclusividade, o vídeo deste depoimento.

Flávio diz que foi o autor dos tiros contra o pai: “Chego lá e me deparei com Anderson (…) Estava sozinho, de cueca (…) Eu efetuei os disparos (…) Contra o Anderson”.

A polícia questiona a distância dos disparos.

O irmão Lucas diz que ajudou na compra da arma. E que naquela noite voltou para casa depois de uma ligação de Flávio: “Voltei porque o Flávio tinha me ligado. Falou que tinha baleado… Tinham baleado meu pai.”

A defesa de Flávio contesta este depoimento que, segundo ela, foi prestado sem a presença de advogados, e sob pressão. E afirma que Flávio não é o autor dos disparos.

Essas versões apresentadas pela defesa se entrelaçam agora a novos desdobramentos. O Fantástico teve acesso a um termo de declarações prestado pela deputada Flordelis à Polícia Federal, no último dia 30. Ela relata ter sido vítima de ameaças por telefone, e de uma tentativa de extorsão, dois meses depois do crime.

A deputada só aceitou conversar com a equipe do Fantástico no escritório de seus advogados. Ela conta que uma das ameças teria partido de um homem que ela identificou como sendo um ex-advogado de seu filho Lucas.

Flordelis: “Só falava a mesma coisa: eu preciso te encontrar porque eu tenho algo que vai ser muito bom para nós, vai ser muito bom para você, e eu preciso te encontrar.”

Ela ainda entregou à Polícia Federal gravações dos telefonemas, às quais o Fantástico teve acesso.

“Venho segurando algumas coisas como a colaboração premiada, eu venho segurando para evitar que ela aconteça. Eu queria ajudar mesmo”, diz um homem na gravação.

Flordelis também disse à Polícia Federal que recebeu “telefonemas dirigidos ao gabinete que ocupa na Câmara dos Deputados em Brasília”. Do outro lado da linha, estaria um homem que se apresentou como policial civil, “que seria lotado na Delegacia de Homicídios da cidade do Rio de Janeiro”. Ele teria dito que “o mandato de Flordelis estaria ameaçado e que ele poderia influenciar na Delegacia de Homicídios em Niterói, pois que teria parceiros com influência suficiente para tanto”.

“Eu falei, eu não sei do que se trata… Eu preciso gravar, e eu gravei a ligação. Estavam querendo me extorquir dinheiro”, contou Flordelis.

Suposto policial: “Tem uma pessoa da família da senhora, e até o momento eu não vou citar nome, entendeu, que garantiu que tem prova de que a senhora estava sendo a mandante, que a senhora sabia de tudo que ia acontecer. Isso eu tô falando com a senhora, não tô nem falando como policial, tô falando como uma pessoa normal, entendeu?”

Flordelis: “Entendi. Ai, meu Deus.”

Em outro momento da ligação, o suposto policial tenta extorquir dinheiro da deputada.

Suposto policial: “Eu vou falar português claro com a senhora, a nossa intenção é o dinheiro. E eu sei que a gente pode passar informação para a senhora, para a senhora se resguardar e se defender antes de surgirem fatos novos, entendeu?”

A Polícia Federal abriu um procedimento para apurar as declarações prestadas pela deputada. E a Policia Civil do Rio de Janeiro, em nota ao Fantástico, afirmou que “a Delegacia de Homicídios de Niterói investiga, em inquérito sigiloso”, esses telefonemas. E que a Polícia Civil nunca foi procurada pela parlamentar para comunicar tais fatos”.

Durante a entrevista, Flordelis ainda apresentou uma carta, escrita a mão, que ela diz ser do filho Lucas, que está preso.

Fantástico: “Como é que a senhora recebeu essa carta?”

Flordelis: “Veio das mãos da esposa de um preso.”

Ela afirma que a mulher entrou em contato com ela por meio das redes sociais. E que um de seus filhos buscou a carta na frente de um presídio.

Fantástico: “A senhora recebeu quando essa carta?”

Flordelis: “Olha, tem uns dez dias. Por aí. Uns cinco, três dias. Eu não lembro direito. Eu ando tão… sabe?”

A Defensoria Pública do Estado diz que assumiu “há pouco tempo” a defesa de Lucas, e por isso no momento “estuda medidas a serem adotadas”. A defesa não se manifestou sobre a existência da carta, nem sobre os últimos depoimentos de Lucas.

A carta, segundo a deputada, traz uma nova versão de Lucas, que envolve no crime um outro filho da dela: Misael.

Misael é vereador da cidade de São Gonçalo, no estado do Rio. Ele é um dos filhos do casal que acusa a mãe de ter participação no assassinato. Ele disse à polícia, três dias depois do crime, que “acredita que Flordelis tenha sido mentora intelectual da execução de Anderson”, e que “ela estava descontente com questão financeira”.

O Fantástico procurou Misael, que não quis gravar entrevistas. Mas em nota ao Fantástico ele disse que não participou da execução de seu pai, e que a declaração da mãe “traduz nítida intenção de criar confusão no curso das investigações”.

Diante de tantas versões, qual é, afinal, a verdade? Só a investigação irá responder.

Fantástico: “A senhora hoje confia em todos os seus filhos?”

Flordelis: “Alguns sim. Por que não?”

Fantástico: “Não em todos?”

Flordelis: “Não.”

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